30 mai
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Virando a pauta racista e sexista na mídia
Ivonildes (Vania) da Silva Fonseca*
[...] É muito difícil saber onde começa e onde termina esse processo. Mas o essencial é perceber que a imprensa caminha junto com a sociedade. Às vezes estamos atrás, às vezes um pouco na frente, às vezes puxando, às vezes sendo empurrados. É um processo de troca permanente. Mas a imprensa não tem o poder de mudar a sociedade, ela é parte da sociedade ( LEITÃO, 2002,p.49)
A lúcida afirmação de Miriam Leitão põe o discurso supervalorizador sobre a mídia no seu devido lugar. Entretanto, não dá para desconhecer o poder da mídia no sentido de “influenciar comportamentos, opiniões, definir pautas para o debate público e atuar como espaço privilegiado para a comunicação e a intervenção pública.” (BASTHI, 2011, p.13)
Todavia, apesar desse poder de influencia a contribuição da mídia em favor de estimular a discussão e propostas sobre o racismo e o sexismo no Brasil ainda é incipiente. Diante disso, a transcrição literal e longa de um trecho do “Guia para Mídia” é necessária, por conta da pertinência do conteúdo e da força da autoridade de quem a escreveu.
Há alguns anos – e, particularmente, desde a Primeira Conferência Nacional pela Democratização da Comunicação (1ªConfecom), realizada em 2009 – vem sendo amadurecido o debate para a construção de um novo marco regulatório da comunicação que irá reordenar o sistema de comunicação do país. Entre as suas metas, está uma nova plataforma política, institucional e jurídica a partir da construção de uma mídia mais plural e representativa da diversidade brasileira, livre de estereótipos e mais próxima das demandas da população.[...]
[...]A mídia brasileira tem sido palco privilegiado para a reprodução de estereótipos de gênero, raça e etnia e invisibilização das populações historicamente discriminadas. Como resultado, atua como um dos principais agentes para a manutenção de crenças, valores, hábitos, comportamentos e atitudes sexistas, racistas e etnocêntricas, promotores de sofrimento e de profundas desigualdades na sociedade brasileira. A combinação do sexismo, do racismo e do etnocentrismo na mídia constitui uma violação dos direitos humanos à comunicação e contribui para a manutenção de um Brasil com alto índice de desigualdades e produtor de estereótipos, preconceitos e estigmas sobre as mulheres e, em especial, sobre mulheres negras e indígenas.
Embora haja setores na imprensa sensíveis a mudanças, boa parte das notícias apresenta uma linguagem demarcada pela dominação sexista, estereotipada e, especialmente no caso das mulheres negras e indígenas, pouco consistentes, desfocadas da realidade e com periodicidade irregular. Ainda que ocupe o lugar de defensora da liberdade de imprensa e de expressão, a mídia tem se revelado incapaz de identificar e propor mudanças rápidas e eficazes para o tratamento preconceituoso, desigual e discriminatório às mulheres e, em especial, às mulheres negras e indígenas.(BASTHI, 2011, p.13-14)
É oportuno enfatizar que o racismo é o modo de pensar em que se hierarquiza grupos humanos; em que se dá importância à noção da existência de várias raças humanas distintas e superiores umas às outras; o sexismo é uma ideologia que respalda e naturaliza a discriminação, a subjugação, a subalternização de pessoas ou de grupos com base na biologia.
As ações para o fim do discurso racista devem ser construídas primeiramente desfazendo os argumentos recorrentes de que as desvantagens da população negra ocorrem por causa do passado escravista (SILVA;ROSEMBERG, 2008, p.77)
O antropólogo Munanga (1984,p.44-45) colabora sobre como destruir a imagem negativa que foi criada sobre o povo negro alertando que tal tentativa
implica uma ação complexa a nível de debate e a nível prático. A nível de debate acadêmico ou não, um discurso contrário se impõe para refazer o espírito de tantas gerações que foi deturpado pelo discurso ocidental, dito científico. A nível prático, exige-se uma ação política multilinear, envolvendo o sistema educativo, a situação econômica do negro, a sua participação no poder político decisório, o seu estado psicológico, o restabelecimento de sua identidade étnica e do justo lugar que deva ocupar na história sócio econômica do seu país.
Conforme a pertinente reflexão do cientista a mídia pode contribuir sobremaneira na ação que estimule o debate. E assim, conjugando temas de gênero com recorte de raça/etnia podem ser adotados novos critérios para seleção e produção da notícia, tais como:
1) assumir uma postura diversificada na escolha da pauta;
2) utilizar critérios de gênero, raça e etnia para escalar a fonte da matéria;
3) definir, em caso de situação de risco da fonte, os critérios de abordagem;
4) usar uma linguagem na perspectiva de gênero, raça e etnia;
5) optar, sempre que possível, por imagens positivas de mulheres negras e
indígenas para ilustrar o conteúdo de qualquer notícia digitalizada, impressa,
eletrônica ou sonora.(BASTHI, 2011,p.38)
As recomendações das pessoas estudiosas dos fenômenos sociais e do conjunto denominado mídia contribuirão para dar visibilidade positiva às pessoas negras e destruir estereótipos negativos. Outrossim, dará importantes elementos na construção de opiniões e de imagens através da notícia.
REFERÊNCIAS
BASTHI, Angélica (org.).Guia para Jornalistas sobre Gênero, Raça e Etnia .Brasília: ONU Mulheres; Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ); Programa Interagencial de Promoção da Igualdade de Gênero, Raça e Etnia (Fundo de Alcance dos Objetivos do Milênio, F-ODM), 2011.
LEITÃO, Miriam. A imprensa e o racismo. In: RAMOS, Sílvia (org). Mídia e racismo. Rio de Janeiro: Pallas, 2002.p.42-50
MUNANGA, Kabengele. Raízes científicas do mito do negro e do racismo ocidental. Temas IMESC, Soc.,Dir.,Saúde, São Paulo, v.1,n.1,p.39-47,1984.
SILVA, Paulo Vinicius Baptista; ROSEMBERG, Fúlvia. Brasil: lugares de negros e brancos na mídia. In:VAN DIJK, Teun A. (org). Racismo e discurso na América Latina. São Paulo: Contexto, 2008. p.73-117
Ivonildes (Vania) da Silva Fonseca é Doutora em Sociologia, Professora na Universidade Estadual da Paraíba/Centro de Humanidades.


