23 mai
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Sobre as narrativas, o cotidiano e o medo
Patrícia Monteiro*
“A narrativa é uma das respostas humanas diante do caos”. A frase da pesquisadora e jornalista Cremilda Medina indica o potencial das palavras para lançar luz diante dos medos e das sombras de adversidades que tecem a vida diária. O chamado ´caos´ pode ser traduzido pela crescente violência das áreas urbanas, a injustiça social, a fome, a desigualdade de renda, a falta de acesso à saúde e à educação e tantos outros sinais que você, leitor, está a pensar.
É do ´caos´ que muitas vezes se abastece o jornalismo em sua tarefa de observar, para descrever, registrar e recontar o mundo. Para o jornalista, a professora Cremilda Medina alerta: faça narrativas, escreva, recrie os fatos. E eu adiciono: faça da sensibilidade, do senso crítico, da escuta ativa e do olhar atento seus companheiros no caminho. E, por falar em caminho, permita-me ´narrar´ um pouco a minha jornada pelo campo do jornalismo e da pesquisa acadêmica…
Foi ainda na graduação em Jornalismo, iniciada na Paraíba e concluída no pequeno Estado de Sergipe, que as palavras de Medina vieram ao meu encontro. De lá para cá, passaram-se mais de 10 anos,e eu não deixei de me apegar às narrativas. Fiz especialização em Teorias do Texto (UFS), sou da turma pioneira do Mestrado em Comunicação da UFPB e, este ano, ingressei no Doutorado em Comunicação, na UFPE. Apaixonada pela arte de contar histórias, encontrei na reportagem de TV, portal e jornal impresso uma forma de revisar conceitos, conhecer personagens marcantes, produzir informação com a mente inquieta e o coração em alerta.
Na coordenação do curso de Jornalismo da Faculdade Maurício de Nassau e nas atividades de docente e pesquisadora, vejo que a vida acadêmica se nutre, também, da forma narrativa. O pesquisador, tal como o repórter, se abastece da narrativa, mas não como ficção. Nas cenas da vida real repousam o objeto. E na perspectiva de fazer conhecidos os fatos encontra-se o objetivo. No entanto, há muitas formas de narrar, assim como há muitos veículos nos quais a notícia e a informação científica podem ser acessadas. E o blog de Fábio Araújo nasce nesse esforço de produzir sentidos, sendo mais um instrumento a favor da sociedade no processo de lançar luz para organizar um mundo em caos.
A pesquisa que emerge das universidades e faculdades país afora somente realiza sua essência se fizer um diálogo para além dos ambientes fechados dos circuitos acadêmicos. E o blog que temos diante de nós é resultado do olhar de um estudante de Jornalismo que, ainda no 2º período, se propõe a compartilhar, com muita humildade, as narrativas do cotidiano. Fábio Araújo não escreve por lazer ou divertimento, mas num esforço de caminhar com mais propriedade sobre o solo arenoso das notícias num tempo em que centenas de blogs e sites se proliferam, mas poucos conseguem semear um aspecto positivo no desordenado mundo da vida cotidiana.
Como diz o sociólogo Zygmunt Bauman, nas sociedades contemporâneas a luta contra os medos mobiliza todos os homens, sendo uma tarefa que se desenvolve a vida inteira. Nesse sentido, Fábio Araújo desafia suas próprias inquietudes, lançando-se na árdua tarefa de registrar o que vê e tornar público o seu ponto de vista, sem receios. Deixando de lado o temor de agradar a alguns, Fábio se dispõe a percorrer os trilhos do interesse público, da ordem, do bem comum. Um narrador do seu tempo é o aluno e colega Fábio Araújo. Sejam as narrativas do blog um espaço de construção do saber e um mergulho intenso no cotidiano, a partir da partilha de nossos medos e da luta comum a favor da ordem no caos.
* Patrícia Monteiro é jornalista, doutoranda e mestre em Comunicação, e coordenadora do curso de Jornalismo da Faculdade Maurício de Nassau, em João Pessoa.


