29 jun
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A coragem de ser “eu mesmo”
Andrei Alves*
Para sermos nós mesmos de verdade, é necessário abrirmos mão da razão que nos mascara e que nos veste de outra coisa qualquer que não seja o que realmente somos.
Raciocinamos muito sobre o que devemos fazer ou não, sobre o que devemos ser ou não, sobre o que devemos sentir ou não, sobre o para onde devemos ir ou não, etc. Não digo que não devemos pensar, pensar é sempre salutar. Mas digo que pensar demais levanta apenas mais incertezas, pois ficamos presos ao mundo da imaginação, ao reino das possibilidades. Pensamos mais ou menos assim: se fizermos isso, pode acontecer isso, pode acontecer aquilo, pode acontecer aquilo outro, etc.
No reino das possibilidades, tudo pode acontecer. Por isso, quando se trata daquilo que devemos ser, pensar demais, raciocinar demais não é saudável, pois acabamos sendo levados pelo nosso pensamento a um mundo onde tudo pode acontecer, e acabamos de fato sem saber o que aconteceria de verdade.
Pensar demais nos faz tomar decisões erradas. Chocante essa frase, não é? E se eu usasse uma frase de Saint-Exupéry, autor do livro “O pequeno príncipe”: Só se vê bem com o coração! Seria menos chocante? E você poderia perguntar: o que tem haver uma frase com a outra? E eu te diria: TUDO!
O coração pensa? Muito pouco talvez, pois ele se deixa conduzir por sua intuição. O que é intuição? Intuição não é pensamento, é inspiração! Ela brota, sem explicações, eu apenas sinto. É um abraço que sinto que devo dar… É um beijo que profundamente desejo retribuir… É uma ligação que aperta meu coração pra ser feita… É uma palavra de carinho que desejo lá no fundo de mim dar a alguém… É um caminho que, por mais que eu não veja onde vai dar, meu coração bate forte ao pensar em tomá-lo… É aquele sentimento do que eu realmente devo fazer… É o desejo que brota no mais profundo de mim, que muitas vezes não sei explicar.
É neste ponto que o trágico nos alcança: na maioria das vezes eu TRAVO ou SUFOCO o meu coração! E geralmente faço isso em nome de um raciocínio, de um pensamento, de uma reflexão que me convence de que aquilo não é bom, de que não trará coisas boas, etc. E por que não me faria bem? Apenas porque não sei explicar de onde vem? Apenas porque não sei onde vai dar? Apenas porque nasceu, e é um sentimento sem razões óbvias?
Oh, meus amigos, como somos tolos. Diga-me: o que pode te GARANTIR qualquer coisa acerca do teu futuro? O teu pensamento lógico pode te garantir? O teu raciocínio estratégico? Os teus planejamentos bem elaborados?
Amigos, quando se trata de futuro nada e ninguém pode nos dar qualquer garantia que seja! A única garantia que tenho é aquilo que no presente eu sinto que devo fazer, e quem me diz isso é meu “coração”, não minha mente.
Entendem? Porque a mente apenas reflete sobre o que eu sinto, sobre o que eu desejo, ela não tem a capacidade de me dar aspirações e desejos. O pensamento não me dá inspirações! Portanto, o pensamento não capta a voz de Deus dentro de mim, ele apenas tenta entendê-la, e muitas vezes fracassa, quando pensa demais sobre ela. Ele a sufoca!
Só se vê bem com o coração!
Veja bem a comparação que farei.
Porque as pessoas quando bebem bebidas alcoólicas ficam tão diferentes, soltas, desinibidas, etc?
Certamente, amigos, porque elas, as bebidas, quebram as barreiras que o pensamento nos impõe… porque ela derruba as muralhas de impedimentos que o nosso pensar nos obrigou a construir… a bebida faz cair as máscaras de dureza, de rudez, de medo, de timidez, etc. Dessa forma ela acaba revelando quem somos de verdade, sem máscaras, sem medos, sem receios, sem reservas…
O que você faria hoje, se você tivesse sobre efeito de uma bebida alcoólica, que sem ela você não teria coragem de fazer? Talvez esse seja você, o seu eu verdadeiro, querendo sair de trás das muralhas que você construiu para se aprisionar. LIBERTE-SE! Ser livre é ser quem você deve ser de verdade! Sem Medo!
Mas nós não precisamos da bebida para fazer essa libertação. Basta apenas seguir o coração, ignorar um pouco a sua mente, o seu pensamento… DEIXAR SEU CORAÇÃO FALAR!
Não sufoque o seu coração, ele é a voz da sua verdade. Aprenda a controlá-lo, mas não o sufoque. Aprenda fazer o que ele pede, você só não precisa perder as rédeas (esse é problema da bebida, apesar de te fazer saltar as muralhas ela também te faz perder TOTALMENTE o controle). Deixe seu coração falar, controle apenas as palavras, mas não deixe de dizer o que precisa ser dito, de fazer o que precisa ser feito, de ser aquilo que no fundo você sente que deve ser!
Só se vê bem com o coração!
* Andrei Alves é psicólogo e mestre em Ciências das Religiões.


